Lídia Carmeli

Todo dia Música e Poesia

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Voltas que a vida dá

Clara é viúva do primeiro marido. Quando casou-se com Aurélio, ainda era virgem aos vinte e oito anos e não sabia que ele era portador do vírus HIV.
Provavelmente, logo na primeira relação sexual, foi contaminada. E, em verdade, até o dia de sua morte, menos de um ano depois, ela jamais soube, com certeza, se a doença só foi descoberta por ele após o casamento, ou bem antes disso...
Rodrigo compareceu, solidário, ao enterro do marido de sua colega. Eram professores da mesma Universidade e nutriam uma sincera afeição, um pelo outro, embora fossem ambos comprometidos.Depois que Clara ficou viúva, encontravam-se sempre na sala dos professores e saíam juntos para tomar um cafezinho, depois outro e mais outro...
Tornaram-se confidentes inseparáveis e Rodrigo passou a ser o seu melhor amigo, acompanhando-a depois do expediente escolar às suas idas constantes ao hospital para o tratamento de controle da doença.Ele admirava sua jovialidade, seu sorriso aberto, denotando grande alegria de viver e paixão pela disciplina que lecionava. Jamais a via queixando-se da sorte, pelo contrário. Era uma mulher forte e cheia de vida, falava sempre com entusiasmo do material inovador que preparava para as aulas visando sempre despertar nos alunos o interesse pela matéria.
Clara também nutria por Rodrigo, enorme admiração. Ele era a pessoa mais humana e íntegra que jamais conhecera.
A seu lado, sentia-se apoiada e compreendida. O fato é que estavam sempre conversando, enriquecendo a vida um do outro. O que mais a encantava era a capacidade de Rodrigo fazê-la rir alto com suas piadas irreverentes, que sempre continham um fator surpresa, que ela adorava.
Certamente, qualquer um poderia notar como eles já se amavam, antes mesmo deles próprios darem-se conta desse novo sentimento.
Até que Rodrigo, meses depois, aproximou-se mais, num momento de ternura, acariciou seu rosto e chegou mais perto, no intuito de beijá-la na boca.
Clara, temerosa por sua doença, esquivou-se e pediu para que jamais tentasse beijá-la novamente, com medo do futuro incerto que haveriam de ter se ficassem juntos.
Saiu correndo e chegando em casa, chorou durante horas e pela primeira vez, desde que detectara o vírus em sua corrente sanguínea, sentiu pena e asco de si mesma.
Foi quando a campainha tocou. Era ele.
Ela abriu a porta num gesto indeciso, os olhos vermelhos, o rosto inchado e o coração torturado.
Sem dizer palavra, ele entrou, beijou-a apaixonadamente, ao que ela correspondeu, quase sem forças para resistir.
Ele carregou-a no colo, alisando seus longos cabelos dourados, levou-a para o quarto em seus braços, depositou seu corpo trêmulo sobre a cama e anunciou o show.
Show?
Isso mesmo.
Tirou um nariz de palhaço do bolso da calça, colocou sobre o próprio nariz e passou a rir de si mesmo e da situação embaraçosa que estava vivendo por ter se apaixonado por uma moça que não aceitava seu amor._Pelo único motivo de eu ter uma aparente saúde e ela, que é cheia de vitalidade e soube como ninguém dar um sentido à minha pobre existência de palhaço...com seu sorriso encantador...me negar o seu amor e permitir que minha alma adoeça até a morte...completou com um sorriso triste.Ato contínuo, tirou do outro bolso da calça meia dúzia de camisinhas coloridas e disse em tom jocoso, embora sincero:
_ Você pode até negar essa simples alternativa para que possamos viver esse amor em total segurança...e só o que eu vou fazer é soprar esses balõezinhos e pendurar na sua janela, como lembrança do que poderia ter sido e não foi.
Clara, enxugou os olhos, molhados agora, da alegria de estar ali ouvindo o amor de sua vida a declarar-se pra ela...
Surpreendida consigo mesma, pelo insight que estava tendo, tomou a acertada decisão de não jogar sua vida pela janela...
Sentindo-se viva e vibrante, olhava-o agora de um jeito sedutor que jamais havia se permitido.
Ato contínuo, foi desabotoando um a um os botões da blusa que usava, atirando longe o sutiã e permitindo que seus seios saltassem, diante dos olhos incrédulos de Rodrigo...que caminhou a passos lentos para junto dela.
Abriu os braços para o seu amor que nessa altura já havia deixado cair o nariz e o queixo diante de cena tão bela.
_Vem, meu palhaço, disse Clara, sem conter as lágrimas que caíam dos olhos de ambos...
Faça festa no meu corpo, pois tudo o que quero é ser sua mulher e que sejamos felizes até quando Deus quiser!
E quer saber...até onde eu sei, eles continuam vivendo muito felizes há mais de dez anos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Lídia Carmeli
Enviado por Lídia Carmeli em 10/05/2012
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